Espanto e euforia podem ser reações prematuras

Desde o período da redemocratização brasileira, temos visto uma sequência de mudanças partidárias; como trocas constantes de nomes, trocas de lideranças no comando, junções com agremiações de espectro similar, em tentativas de ampliar a competitividade eleitoral, acesso a maior valor de fundo eleitoral, tempo de horário político. Quase sempre, as siglas grandes engolindo as menores. Dessa união decorre o que é a marca dos partidos brasileiros; a diversidade e autonomia interna. Em diferentes estados, o partido apoia governos e candidatos distintos, inclusive de campos ideológicos opostos.

Quem conhece a dinâmica política sabe que o período entre a realização das convenções e o registro das candidaturas é marcado por intensa fluidez, num cenário que permanece aberto. Decisões que hoje parecem definitivas podem ser revistas, candidaturas são confirmadas ou retiradas, alianças são revistas e as negociações se intensificam. O calendário eleitoral foi concebido exatamente para permitir essas acomodações, composições e ajustes finais. Antes do fechamento desse ciclo, espanto e euforia costumam ser emoções prematuras diante um processo que ainda está em construção.

Maurice Duverger, cientista político e sociólogo francês explica que esse nesse ciclo, o comportamento político decorre da lógica das coalizões, quando os partidos não buscam apenas afirmar sua identidade, mas ampliar influência política e ter chances reais de vitória. Quando o partido percebe que sua candidatura é inviável, pode considerar racional apoiar um candidato de outra legenda para preservar espaço ou evitar a eleição de um adversário.

No Brasil, esse fenômeno é muito frequente, apesar de ter preço e consequências e ocorreu na convenção do União Brasil em Mato Grosso, trata-se de um exemplo de coalizão pragmática, em que o partido considera mais vantajoso apoiar um candidato externo do que insistir em uma candidatura própria. Sob a perspectiva da ciência política, o erro pode estar no método, na falta de diálogo, na comunicação precária, entre outras atitudes internas que foram noticiadas.  

Vencer uma eleição é apostar no acerto da convenção até o dia da eleição, numa convergência honesta de todos, mirando o mesmo objetivo. Há histórias de palanques pesados com importantes figuras políticas e empresariais do estado, apoiando, sem convicção, candidaturas que pareciam fadadas ao sucesso para a prefeitura de Rondonópolis em 2008 e 2012. 2008, a reeleição de Adilton Sachetti não merecia preocupação da cúpula. José Carlos do Pátio derrotou o prefeito.

Em 2012, 12 partidos coligados apoiavam Ananias Filho e outros tantos que nem foram formalizados em coligações partidárias, lideranças políticas relevantes, como: Adilton Sachetti, secretários municipais, Wellington Fagundes, Rogério Salles, quase totalidade da Câmara de Vereadores, Luiz Pagot e pouca participação de Blairo, a maior liderança do partido no Estado, além do governador Silval Barbosa. O cenário pode ser resumido da seguinte forma: do outro lado, Percival Muniz, venceu a eleição.

Há partidos organizados em grande estrutura financeira, cujos candidatos são derrotados. O excesso de personalidades pode tornar o palanque pesado e desfocar a identidade do candidato. Poderiam ter repensado o candidato em 2012, equilibrado o tamanho do palanque, mas insistiram em manter o que não é imutável e se calaram na convenção.

Sendo que, em geral, a história eleitoral brasileira é marcada por reacomodações de última hora e a experiência demonstra que rearranjos de forças políticas costumam acontecer na reta final, conforme a evolução das conversas entre as lideranças. E nem diria que isso é um sinal de instabilidade.

Distrações com a internet

Enquanto o eleitor espera propostas para os grandes desafios locais e nacionais, parte do debate político é consumido por controvérsias efêmeras e deliberada estratégia de distração. A boa política não é a que produz mais manchetes, mas a que dedica mais tempo aos problemas que realmente importam e podem melhorar a vida das pessoas.  

A política perde sua finalidade quando se reduz ao espetáculo ou a controvérsias de curto prazo.

Em pleno período pré-eleitoral e abertura das convenções partidárias, quando a população espera respostas para os problemas estruturais, sobretudo em Cuiabá, uma cidade castigada pelos buracos das obras, ora do nunca implantado BRT, ora porque não há recapeamento do asfalto velho nas ruas; onde 11.678 pessoas vivem sem abastecimento de água em suas casas, 107.234 habitantes não contam com rede de esgoto, (dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento), mas pasmem, o prefeito e vários políticos do estado, concentraram o debate numa superficialidade inacreditável: sobre a liberação ou não de espaço público para apresentação de um tal movimento de ‘farmar aura”, que tornou-se um tema viral por dias, pautando entrevistas e o noticiário.

As distrações políticas são estudadas por diferentes correntes da ciência política, sociologia e comunicação. Em Os Usos Simbólicos da Política, escrito pelo cientista político americano, Murray Edelman, o autor sustenta que a política frequentemente mobiliza símbolos, conflitos e narrativas e espetáculos que capturam emoções, enquanto questões estruturais permanecem em segundo plano e os mecanismos de manipulação da opinião pública, as estratégias de distração e a busca por temas rápidos e simplificados ganham corpo em prejuízo de discussões complexas.   

Alguns políticos contemporâneos criticam a superficialidade do debate público atual. Barack Obama percebeu que a política estava sendo dominada por distrações digitais e culturais, em detrimento do debate sobre emprego, saúde, educação e segurança. Em um discurso de 2022, disse que o país não podia se distrair com as controvérsias da internet enquanto enfrentava desafios estruturais.

Emmanuel Macron costuma criticar a polêmica permanente, argumentando que a política perde tempo com escândalos e modas passageiras e deixa de discutir competitividade, inovação e reformas de longo prazo. Angela Merkel ficou conhecida por impor uma ordem política orientada por problemas concretos, defendia que a política pública deveria priorizar soluções em vez de controvérsias midiáticas evitando debates que considerava performáticos.

Em períodos eleitorais, a mudança do foco dos problemas reais pode ser uma estratégia para reduzir à atenção sobre temas politicamente importantes, para os quais não se tem resposta. Essa visão é consistente em estudos de comunicação política e tem paralelo em análises clássicas da ciência política. Em períodos eleitorais, quando temas como saúde, educação, segurança, infraestrutura, economia e gestão pública deveriam ocupar o centro do debate dos políticos, parte da discussão acaba sendo desviada para polêmicas de baixo impacto prático, frases de efeito para arrancar riso amarelo, envergonhado de quem assiste a presepada e guarda a impressão de que os problemas estruturais da cidade estão recebendo menos atenção do que merecem. 

O Brasil condena publicamente o racismo, mas convive bem com os resultados desiguais produzidos pelo preconceito

O debate sobre racismo não perde a relevância enquanto houver casos de discriminação, insultos racistas e desigualdades raciais. Na sociologia, um fenômeno só deixa de ser objeto de debate, quando deixa de produzir efeitos sociais nas populações afetadas. Estudo do Ipea mostra que a desigualdade racial no Brasil não é apenas consequência da pobreza geral: raça e classe se combinam, produzem desvantagens persistentes para a população negra. O brasileiro tende a apresentar menos manifestações públicas de hostilidade racial, mas os insultos raciais ocorrem e são objetos de denúncias, processos judiciais e estudos.

O IBGE identifica desigualdades raciais recorrentes no emprego, na renda, na educação, na segurança e na representação política. Indica que houve avanços educacionais e expansão da presença negra nas universidades, porque houve a implementação de políticas afirmativas, como por exemplo, o estabelecimento das cotas que ampliam o acesso da população negra às universidades. O ponto comum dos estudos é que a raça influencia significativamente as oportunidades sociais no Brasil. Ou seja, o Brasil avançou na legislação antirracista, nas ações afirmativas, mas ainda não transformou essa igualdade jurídica em igualdade no cotidiano das pessoas negras.

Episódios recentes explodem no estado de Santa Catarina e enfraquecem a afirmação de que “quase não há insultos racistas” no Brasil. Dados divulgados pelo próprio Tribunal de Justiça indicam que Santa Catarina apresentam o maior número de registros de injúria racial do país. Dados confirmados nos levantamentos recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e divulgados no 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, citam São Paulo e Minas Gerais logo atrás. Juntos, esses 3 estados registraram 60,6% dos casos de injúria racial no Brasil.

A Espanha tem enfrentado problemas de racismo contra jogadores negros; diversos episódios ganharam repercussão internacional e os casos mais conhecidos foram direcionados o jogador brasileiro Vinícius Júnior, atacante do Real Madrid, que desde 2021, sofre insultos racistas em diversos estádios na Espanha. Vini tem sido um instrumento de combate ao racismo no futebol e algumas condenações inéditas já ocorreram na corte espanhola. Porém, em 2026, um passo atrás foi dado pelo ex-primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy, que em plena fase semifinal da Copa do Mundo questionou com deboche a ascendência africana da seleção francesa. 17 dos 26 jogadores tem ascendência africana, embora a maioria deles, tenham nascido na França, inclusive Mbappé, que também foi vítima de ataques racistas e xenófobos por parte de uma senadora paraguaia, após a eliminação do Paraguai.

Superficialmente, a ideia repetida nas narrativas nacionais de que “na Argentina quase não existem negros”, revela uma sociedade que invisibilizou a população negra e indígena, tornando o racismo difícil de ser discutido no país, que construiu historicamente uma identidade nacional branca e europeia. Assim, falando sem profundidade, surgiu o mito da Argentina branca, como uma extensão cultural da Europa na América do Sul. No censo de 2010 apenas 0,4 da população argentina se declarou descendente de africanos, número contestado pela Escola de História e Pensamento Afrodiaspórico, que fala que há 2 milhões de descendentes africanos no país. 

A América do Sul, em estudos sobre os descendentes de africanos na região produzido pela Cepal é tido como o continente da negação; profundamente marcado pelo racismo e onde o racismo não se resume ao insulto explícito. A afirmação é que o racismo latente aqui é disfarçado de humor, preferência estética pela branquitude, tradição, rivalidade esportiva. Quando a sociedade chama isso brincadeira ou paixão, transforma a agressão em costume. Tudo que se torna costume deixa de produzir indignação. O futebol não inventa as ofensas, apenas oferece um ambiente coletivo, onde muitos se encorajam a verbalizar o preconceito existente, como os europeus fizeram com Mário Balotelli.

Italiano, um dos principais atacantes do futebol europeu de 2008 a 2019 foi um dos primeiros a se levantar para colocar o racismo no futebol europeu em discussão. Filho de imigrantes de Gana, nascido na Itália, enfrentou durante toda a carreira episódios grosseiros de discriminação racial. Torcedores imitavam sons de macaco em partidas da liga italiana, lhe dirigiam insultos racistas em jogos da seleção. Balotelli reagiu, chorou, abandonou o campo, chutou a bola em direção a um grupo após ser alvo de cânticos racistas. Os árbitros interrompiam as partidas, os racistas continuaram insultando Balotelli, independentemente do clube, até o encerramento de sua carreira. O racismo que quase destruiu Balotelli não é exclusivo da América do Sul ou da Europa. O racista está em toda parte e não apenas nos estádios.

Não negar aplauso ao belo

“Eu tenho uma pressa quase agônica de elogiar. Se vejo um talento, um lampejo de gênio, uma beleza, eu preciso berrar isso para o mundo imediatamente. O talento alheio me cura, me salva da mediocridade cotidiana. Negar o aplauso é uma avareza infame.” Nélson Rodrigues, em Memórias: a menina sem estrela.

O mérito merece reconhecimento, venha de onde vier. O que uma sociedade admira, ela educa para isso sempre aconteça. Aquilo que uma sociedade aplaude, ela fortalece. Aquilo que reconhece, ela transmite. Aquilo que valoriza, ela transforma em referência.

Reconhecer e aplaudir o belo, o correto, é um gesto político, sociológico e civilizatório. A sociedade se organiza também por símbolos, exemplos, e valores compartilhados. Aquilo que uma coletividade decide admirar revela muito sobre o tipo de mundo que deseja construir. O belo, nesse sentido, não deve ser compreendido apenas como estética ou aparência. O belo é aquilo que humaniza, que educa a sensibilidade, que rompe a brutalidade cotidiana e recorda que a vida pública e privada também precisa de grandeza, delicadeza e sentido.

Estou a rodear falando do belo, para falar de futebol, da disposição de reconhecer o mérito, de cultivar um olhar capaz de encontrar grandeza onde ela realmente existe. No futebol, o belo aparece na técnica, na disciplina, no espírito de equipe, nos momentos em que o talento e o esforço produzem desempenhos memoráveis dentro do campo e em alguns casos, simbolicamente.

A Noruega, que reestreia na Copa Mundo, após três décadas sem se classificar, chegou às quartas de final como uma seleção que combina intensidade física, ocupação de espaço e disciplina coletiva. Não é um futebol ornamental; é um futebol onde a beleza está na precisão: saber defender, acelerar e transformar organização em ameaça. O belo também está no correto bem executado, jogado com coragem, mesmo que venha a cair.

O Marrocos, segundo comentário da Reuters, passou por um belo processo de amadurecimento. O Marrocos soube sofrer, resistir e agora é uma seleção clínica. A beleza de Marrocos carrega uma dimensão simbólica forte: é uma seleção africana que vem impressionando, ficando entre as grandes seleções desde a Copa anterior isso dá ao seu futebol uma beleza política: a beleza de quem desafiou hierarquias tradicionais do futebol mundial. Filosoficamente, é possível dizer que Marrocos e Noruega mostraram que o belo no futebol não está apenas no drible, no improviso ou no espetáculo individual, nos dois casos, as seleções de menor tradição conseguiram competir em alto nível, pela demonstração de belezas singulares.

Entre as seleções tradicionais, cito a França, que confirma sua formação multicultural, a complexa teia de nacionalidades e pertencimentos de seus jogadores que tem origens familiares africanas, caribenhas e chegamos até o Mbappé, que trabalha muito bem espírito de liderança, comportamento e tamanho zelo pela imagem pública, que passou a questionar o uso de sua imagem pelos patrocinadores da seleção francesa. Estabeleceu limites morais para a exploração de sua imagem e definitivamente não aceita associar-se à empresas de apostas, o que o levou a ter atrito com a Federação Francesa de Futebol, ateando combustível em uma discussão temida, segundo o jornal L´Équipe.

A beleza nasceu também da simplicidade de Vozinha, goleiro da seleção de Cabo Verde, que combina a ternura de sua história com a avó, com um desempenho espetacular dentro do campo. Saiu gigante da Copa do Mundo.

O belo se fez sentir profundo na despedida de Cristiano Ronaldo da seleção portuguesa; um fechamento de ciclo que lembra a ideia de que a grandeza de uma vida só pode ser plenamente compreendida quando a sua trajetória está completa.

Candidatos nos bastidores

Antes de aparecer nos palanques, os candidatos aparecem nas entrevistas, nas redes sociais e aproveitaram a última semana antes do “defeso eleitoral”, expressão que indica o período em que a legislação eleitoral impõe restrições mais severas para evitar o uso da máquina pública em benefício dos que já detém mandato.

Nos bastidores a movimentação foi intensa nas últimas sessões realizadas pela Assembleia Legislativa para homenagear um dos mais ilustres mato-grossenses, Dante de Oliveira, por ocasião dos 42 anos da votação da Emenda Dante de Oliveira, ‘Diretas Já’ e mais recentemente na sessão para celebrar 50 anos da Lei Federal que deu nome a ferrovia de Senador Vicente Vuolo.

Na política, quando todos começam a se movimentar ao mesmo tempo, não é apenas entusiasmo. É sinal de que os bastidores já entenderam que a eleição começou ainda que oficialmente ninguém admita e desconversam dizendo aguardar a confirmação das candidaturas nas convenções partidárias. São diálogos em que avaliam alianças, composições de chapa, apoios regionais, força partidária e a possibilidade de unir grupos que, publicamente, ainda parecem distantes.

A eleição começa muito antes do voto. Ela começa nas conversas discretas, nos telefonemas cautelosos, nos encontros reservados nas salas anexas, nas aproximações cuidadosamente calculadas e na definição de quem estará ao lado de quem quando a disputa finalmente for oficializada.

Os bastidores da política são espaços da escuta e da estratégia. Lideranças conversam com partidos, prefeitos, vereadores, empresários, movimentos sociais e antigos aliados para compreender onde há terreno favorável, quais resistências precisam ser enfrentadas e que tipo de projeto pode reunir mais apoio.

Nem toda articulação nos bastidores de um grande evento representa falta de transparência. Em uma democracia, construir candidaturas exige diálogo, composição e capacidade de aproximar interesses distintos. Só há risco quando a política deixa de discutir projetos para a sociedade e passa a reunir candidatos na disputa por espaços, cargos e vantagens.

Na política, articular não significa necessariamente fazer acordos obscuros. Em seu sentido democrático, é reconhecer que ninguém governa sozinho.

Um governo, um parlamento ou uma liderança dependem da capacidade de ouvir, compor, construir maiorias e transformar diferenças em flexibilidade. A política é feita de correlações de força, alianças e leitura precisa do tempo; quem não compreende os movimentos ao redor dificilmente sustenta poder ou influência.

No período pré-eleitoral, as articulações se intensificam porque é tempo em que as lideranças observam cenários, testam alianças, avaliam partidos, calculam riscos e procuram espaços de sobrevivência política.

Algumas alianças nascem de afinidades programáticas; outras, do pragmatismo de unir forças diante de adversários mais fortes. O desafio é distinguir a articulação legítima de conversas soltas e propósitos que não se sustentam numa observação mais acurada.

Todavia essas conversas fazem parte da política. Nenhum candidato chega competitivo a uma disputa majoritária apenas com vontade individual ou presença nas redes sociais. Governar exige coalizões, capilaridade municipal, apoio parlamentar e capacidade de dialogar com setores diferentes da sociedade. Por isso, os bastidores se tornam um espaço de leitura do cenário e de construção de viabilidade. Foi muito do que vi essa semana.

Entre candidatos ao governo, as conversas costumam ter múltiplos objetivos. Algumas buscam evitar a fragmentação de um mesmo campo político; outras discutem possíveis alianças futuras, indicações para vice-governadoria ou apoio em determinadas regiões. Há também diálogos que servem apenas para medir disposição, testar lealdades e compreender até onde cada grupo está disposto a ir.

Em democracia, articular é construir pontes. O problema surge quando essas pontes não levam ao interesse público, mas apenas à preservação de grupos, cargos e privilégios.

Max Weber lembrava que a política exige responsabilidade diante das consequências. Por isso, uma boa articulação não pode ser apenas eleitoral ou imediatista: precisa produzir governabilidade.

A vedação nos três meses anteriores ao pleito pouco alcança os parlamentares. A atividade legislativa continua legítima. O parlamentar candidato à reeleição pode exercer plenamente o mandato, fazer fala na tribuna, votar e representar a população. O limite da lei eleitoral está no uso da estrutura pública, dos servidores, da publicidade institucional e dos recursos do Estado para produzir vantagem na disputa.

Palavra, caráter e credibilidade

Gosto de discursos e os analiso primeiro pela ótica de Michel Foucault, para quem o discurso não é apenas aquilo que se diz, mas uma forma de produzir verdade, autoridade e poder, por isso é importante observar o que não foi falado também, porque Foucault nos ensina que todo discurso organiza visibilidades e silêncios.

Impossível falar sobre discursos e não incluir, de início, Winston Churchill, primeiro-ministro do Reino Unido em dois períodos, cujas falas tinham eixos fortes. No cenário da Segunda Guerra Mundial, ele apresentava a esperança como decisão política, não escondia as ameaças e preparava o povo para o sacrifício; Churchill usava a palavra, o tom e o gesto para convocar o povo a ter coragem, em sua frase famosa: “Não tenho nada a oferecer senão sangue, trabalho, lágrimas e suor.” Na Câmara dos Comuns diante da ameaça nazista, ele ensinou que nos momentos de maior ameaça, a palavra do líder precisa transmitir firmeza: “Nós lutaremos nas praias, nos campos e nas ruas, lutaremos nas colinas: nunca nos renderemos.”

Churchill produziu textos por mais de 50 anos, escreveu suas memórias da Segunda Guerra Mundial e ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1953. O livro “Churchill e a ciência por trás dos discursos”, de Ricardo Sondermann destaca uma dezena deles, onde se percebe que a eloquência, a postura de Churchill eram uma combinação de técnica, contexto e reputação, alguém que sustentava aquilo que dizia, em qualquer cenário. Churchill a palavra e a aparência se completavam: chapéu, charuto, gestos firmes, discurso de resistência. É isso que penso: que o discurso funciona quando reforça a figura do político.

“Os 50 discursos que marcaram o mundo moderno”, organizado por Andrew Burnet também fala de Churchill e outras 49 personalidades e apresenta a palavra pública como uma das mais poderosas ferramentas da política. A obra reúne pronunciamentos que ajudaram a sustentar governos, a derrubá-los, convocar povos para a guerra, desafiar regimes autoritários, defender direitos civis, anunciar transformações sociais e construir símbolos duradouros da democracia e da liberdade, exatamente nesse contexto, publicam o discurso inigualável de Ulysses Guimarães, proferido no Congresso Nacional, no Ato de Promulgação da Constituição Cidadã de 1988, que eternizou as frases energéticas e inabaláveis em defesa da democracia:

“A Nação quer mudar. A Nação deve mudar. A Nação vai mudar.”

“A Constituição certamente não é perfeita. Ela própria o confessa ao admitir a reforma. Quanto a ela, discordar, sim. Divergir, sim. Descumprir, jamais. Afrontá-la, nunca.”

Mais do que uma seleção de falas de efeitos famosas, o livro organizado privilegia os discursos que nasceram de circunstâncias históricas, explorando as crises institucionais, conflitos ideológicos, guerras, revoluções, lutas por independência, combate ao racismo, defesa das mulheres, resistência a ditaduras.

Ao ler muitos discursos é possível revisitar a história e perceber que aquele discurso era um ato dentro de um campo de batalha, exemplo do discurso do líder negro Nelson Mandela, no dia da sua libertação, após 27 anos de prisão, numa condenação à prisão perpétua. “Amigos, camaradas, concidadãos sul-africanos, eu os saúdo em nome da paz, da democracia e da liberdade para todos. Nossa marcha pela liberdade é irreversível. Não devemos permitir que o medo se interponha em nosso caminho.” Três anos após a soltura venceu o Prêmio Nobel da Paz” e no ano seguinte elegeu-se como o primeiro presidente negro da África do Sul.

“Eu tenho um sonho” discurso proferido pelo pastor protestante americano Martin Luther King, durante a Marcha sobre Washington por trabalho e liberdade, em 1963 é considerado um dos discursos mais comoventes e inspiradores do século XX. “Eu tenho um sonho de que meus quatro filhos, pequenos, um dia viverão em um país onde não serão julgados pela cor de sua pele, e sim pelo conteúdo de seu caráter.” É a retórica poderosa transformando sentimentos coletivos em ato público. Luther King foi assassinado durante um ato pelos direitos civis em 1968.

A escritora feminista americana Betty Friedan, discursou em Chicago sobre a hostilidade entre os sexos e disse que talvez seja este, o fato menos compreendido da história política; que os homens só serão verdadeiramente libertados para amar as mulheres quando as mulheres forem libertadas para ter participação plena nas decisões sobre suas vidas e da sociedade.

Ler discursos sobre os mais diversos temas, tanto de esperança e reconciliação ou pronunciamentos que revelam o perigo do autoritarismo, da manipulação, a desigualdade, compreendemos que na política as palavras nunca são neutras, não são esquecidas e nem ficam desatualizadas.

Não basta controlar o palanque; é preciso cuidar dos bastidores

Os homens, em geral, julgam mais pelos olhos. A maioria das pessoas forma opinião sobre o político, pelos gestos, pelas palavras e imagens e não pelo trabalho de conhecer profundamente sua conduta. Em período eleitoral isso significa que a imagem é julgada antes mesmo que as intenções sejam compreendidas, embora uma imagem recortada quase nunca explica um fato inteiro. Mas, fato é que, a vida privada deixa de existir e a exploração política se encarrega de ‘dar sentido’ aos gestos, imagens e palavras.

Um encontro cordial com eleitoral transformou-se em grande dor de cabeça para ex-primeiro-ministro do Partido Trabalhista do Reino Unido, Gordon Brown, em 2010. Em campanha, se reuniu com eleitores, discutiu imigração, impostos e qualidade dos serviços públicos. Ao entrar no carro, sem perceber que o microfone ainda estava ligado, irritado ele reclamou da equipe que havia organizado a reunião, que ele classificou como um desastre e chamou de “mulher preconceituosa e difícil” a eleitora, de seu partido que ele havia acabado de abraçar. A reunião política virou uma crise da campanha. Os adversários expuseram a foto e nome da mulher e a frase dito por Gordon Brown. O caso ficou conhecido como “Bigotgate – o caso da ‘preconceituosa’”. O Partido Conservador de David Cameron venceu a eleição e ele tornou-se o primeiro-ministro.

O episódio mostra que, em período eleitoral, não basta controlar o palanque: é preciso cuidar também dos bastidores. Uma frase dita em ambiente aparentemente privado, como dentro de um carro, pode, em segundos, chegar aos jornais e à praça pública. O fato em si não deve ter sido a causa da derrota de Gordon Brown, mas se tornou um retrato marcante de uma campanha em dificuldade.

O período eleitoral é marcado pela exploração de tudo. A política, nesse momento, deixa de ser apenas disputa de propostas e passa a ser também disputa de sentidos, imagens, palavras, gestos e intenções. Nada parece inocente. Uma fotografia vira recado, uma frase vira munição, o silêncio é sempre suspeito. O encontro de políticos em eventos públicos vira insinuação de aliança, ruptura, recado ou provocação. No ambiente eleitoral, a palavra raramente circula de forma neutra; ela é disputada, editada, interpretada e, muitas vezes, distorcida. Mas talvez o ponto mais delicado seja a exploração das intenções. O que alguém “quis dizer”, “quis sinalizar” ou “quis esconder” passa valer tanto quanto o fato. A política eleitoral vive muito dessa leitura de insinuações.  

O problema não está na imagem em si, mas no uso malicioso que se faz dela. O encontro, a fotografia ou o vídeo não mais registram fatos; passam a fabricar intenções presumidas. É assim que a disputa eleitoral, às vezes degrada o debate público: substituindo a verdade pelo enquadramento, o contexto pela legenda e o argumento pela suspeita. Todo cuidado é pouco e não basta intenção de escuta e gesto humanitário ao visitar ou se encontrar com uma pessoa fragilizada; a cena precisa ser cercada de seriedade contra leituras de oportunismo, para que adversários não a reproduza com a legenda de que o candidato está usando a dor das pessoas para fazer campanha. 

Quanto mais clara é a contextualização de uma foto e vídeo, menor é o espaço para manipulação maliciosa de uma fala ou de uma expressão facial, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que trata como problema eleitoral a divulgação de conteúdo fabricado, manipulado ou descontextualizado que tenha potencial de prejudicar um candidato ou prejudicar o equilíbrio da disputa eleitoral.

O Brasil visto por outras dimensões

O Brasil ainda carrega estereótipos turísticos. Durante muito tempo, o olhar estrangeiro reduziu o Brasil a três símbolos fáceis: futebol, carnaval e sensualização da mulher brasileira. Essa imagem de ‘paraíso tropical’ foi reforçada por campanhas turísticas nacional, abraçadas pela mídia internacional e pelo turista com leitura superficial do país. O Brasil precisa ser conhecido não apenas pelo que encanta, mas pela relevância de sua produção de alimentos, pela pesquisa cientifica que apresenta estudos e relatos de pacientes com lesão de medula que apresentam recuperação de movimentos.

O Brasil da produção de alimentos, da ciência, da energia renovável, da biodiversidade, da cultura, do trabalhador com carga horária de 8 horas por dia ainda disputa espaço contra a velha caricatura do país. Ao lado do Brasil do futebol, do carnaval, das influenciadoras sensualizadas há o Brasil, sofisticado e produtivo da ciência e as mulheres brasileiras estão representadas pela Dra Tatiana Sampaio, seguramente a brasileira mais celebrada dos últimos tempos, uma mulher que atua na área da biologia celular e regeneração de tecidos nervosos com o uso da polilaminina, uma substância que ajuda na regeneração de lesões na medula espinhal. Ela simboliza o Brasil da pesquisa, da Universidade Pública de recursos escassos, mas que produziu um conhecimento que hoje dialoga com o mundo da ciência. Não, isso não vai aparecer num cartão postal, mas orgulhosamente lemos e vemos a imagem da Dra Tatiana sendo celebrada e premiada mundo afora.

O futebol brasileiro é um elemento legítimo da nossa identidade cultural. Hoje, 13 de junho, o Brasil estreia na Copa e já estou concentrada desde manhã, porém, percebo que o futebol brasileiro se tornou também uma economia de exportação de talentos. O Observatório do Futebol, em maio de 2026, apontou que há 1,4 mil brasileiros atuando no exterior, em 135 ligas pelo mundo. Então, há uma contradição simbólica: o Brasil forma o talento, oferece a identidade nacional e carrega a paixão popular, porém, parte expressiva da riqueza gerada pelos jogadores circula fora do país. O país continua sendo uma grande fábrica mundial de jogadores e suas vitrines. O Brasil celebra craques que jogam e investem em outros países.

O problema não está no futebol nem no carnaval, praias e mulheres. O problema está na redução do Brasil a um cartão-postal exótico, como se o país fosse apenas festa. O país não cabe mais nessa moldura estreita. No ano passado, o agronegócio brasileiro alcançou US$ 169,2 bilhões em exportações, respondendo por quase metade das exportações nacionais, o que reforça o peso do país na segurança alimentar do mundo. O Brasil contemporâneo é uma potência agrícola, que o jornal francês Le Monde, em janeiro de 2026, assim explicou: “A força brasileira vem de três fatores centrais: extensão territorial, tecnologia tropical e capacidade de produção em larga escala. A Embrapa adaptou sementes, solos e técnicas ao clima e essa transformação fez o Brasil saiu da condição de país que já importou alimento para se tornar uma das maiores potências agrícolas do planeta. O Brasil ocupa hoje uma posição estratégica no sistema alimentar mundial: não é apenas um grande produtor, mas um dos países que mais influência preços, abastecimento, segurança alimentar e comércio internacional. O país se consolidou como potência agroalimentar especialmente em soja, milho, carne bovina, carne de frango, açúcar, café e suco de laranja.”

O Brasil é um país complexo para ser resumido em alguns pilares de sustentação. O espetáculo do futebol, a praia, o carnaval são patrimônios culturais do Brasil. O país vive muitas contradições e desafios importantes: O Brasil contemporâneo carrega grande responsabilidade ambiental, sobretudo pela pressão sobre a Amazônia, água, minerais e preservação de comunidades tradicionais. É um dos grandes celeiros do mundo, um ator estratégico da segurança alimentar global, cujo desafio histórico é transformar potência produtiva em segurança alimentar para a própria população.

Liberdade de imprensa não ataca reputações

No dia 7 de junho de 1977, em meio ao endurecimento das medidas arbitrárias impostas pelo regime militar, inclusive com fechamento temporário do Congresso Nacional, mais de três mil jornalistas brasileiros assinaram um manifesto contra a censura e todas as formas de cerceamento à imprensa durante a ditadura militar. Com apoio oficial da Associação Brasileira de Imprensa, o documento foi lido no Senado Federal e na Câmara dos Deputados por políticos do MDB. O manifesto denunciava a apreensão de publicações, a não divulgação de informações pelo governo e a proibição da entrada de publicações estrangeiras e propaganda eleitoral nos meios de comunicação.

Os avanços, os desafios e a imprensa livre possível hoje partiram de certa forma desse enfrentamento perigoso, à época. A imprensa livre é uma das bases mais importantes para o fortalecimento da democracia e esta conquista está inscrita na Constituição Federal de 1988. É através dela que a sociedade fiscaliza, denuncia abusos, atos de corrupção, revela injustiças e amplia o debate público em torno de temas diversos e sensíveis. A imprensa livre não ataca, não serve, não destrói reputações, nem se transforma em instrumento de perseguição.

A imprensa livre é crítica, um instrumento de vigilância que a sociedade tem para que o poder não mantenha longe dos olhos do público, os gastos, os contratos, os interesses do Estado. A liberdade de imprensa aqui percebida e elogiada não contempla sites e portais obscuros, que operam como instrumentos de intimidação, criados para difamar, agredir e espalhar notícias falsas. Isso não é senão distorção do que é imprensa, a vulgarização do jornalismo e não foi para esse fim, a luta travada em 1977.
Com o WhatsApp completando 17 anos, o Instagram 16, os canais de streaming chegando ao Brasil em 2011, grandes emissoras aderindo ao mercado digital em 2016 e muitas outras redes sociais, houve transformação e democratização da produção e circulação de informações. Mais vozes, nem todas qualificadas, passaram a ocupar o espaço público, ampliando debates antes restritos as grandes emissoras. Esse é um avanço importante, que trouxe novos desafios perigosos como a desinformação, ataques a jornalistas, discursos de ódio e tentativas de desacreditar a imprensa profissional. E a democracia precisa de imprensa livre, com autonomia para investigar, criticar, informar e questionar o poder sem medo de perseguição.

A relação da imprensa com a classe política de Mato Grosso é antiga, intensa e profundamente ligada à formação política do Estado. Vejo arquivos, que registram que a imprensa de Mato Grosso, remonta ao século XIX, acompanharam disputas de poder, ciclos econômicos, conflitos sociais e as transformações urbanas. Além da função de dar a notícia, a imprensa tem ajudado a construir a memória pública do estado, através do rádio, televisão, sites e portais que registram a vida parlamentar, os governos, as relações entre si, as sessões, audiências, com embates ou acordos.

No contexto mato-grossense, percebo proximidade respeitosa entre o poder público e imprensa, porém, é um estado onde sobretudo a política é fortemente personalizada e os embates públicos costumam ser intensos, por isso, a imprensa ocupa uma posição, às vezes delicada: precisa fiscalizar sem se tornar instrumento de um lado ou outro; precisa criticar sem difamar; precisa informar sem manipular; precisa ser livre sem abandonar a responsabilidade.

A relação ideal com a imprensa costuma ser baseada na liberdade, transparência e responsabilidade. O poder público deve respeitar a crítica. A imprensa deve respeitar os fatos. E a sociedade deve aprender a diferenciar jornalismo sério de desinformação tendenciosa, travestida de notícia.

Educação e diálogo para formar indivíduos críticos e solidários

É difícil, porém, bastante fértil tentar estabelecer conexão entre os filósofos e sociólogos Jürgen Habermas e Edgar Morin, ambos nascidos nos anos 1920, na Alemanha e França, respectivamente. Habermas faleceu em março de 2026 e Morin faleceu sexta-feira passada, 29 de maio. Em dois meses, o pensamento contemporâneo perdeu dois grandes nomes, dois intelectuais que atravessaram o século XX e chegaram no século XXI, defendendo razão, democracia, educação e a vida pública.

Na sociologia ambos são muito difundidos, lidos e apreciados com respeito. Ousei aproximá-los pela preocupação comum de que a educação e o diálogo devem preparar as pessoas para compreender a complexidade e transversalidade do mundo moderno. No campo político, ambos recusam a política empobrecida pela burocracia, pelo autoritarismo ou pela simplificação de problemas complexos.

Habermas, ligado a tradicional Teoria Crítica Alemã, um braço da Escola de Frankfurt. A tese central de seus ensinamentos é o argumento que a democracia depende da qualidade do debate público e sai em defesa da razão comunicativa, que deve dar o tom nos diálogos, na argumentação e na busca de entendimentos entre as pessoas.

Essa é a base da democracia deliberativa e da esfera pública, que em Habermas, é o espaço onde os cidadãos discutem assuntos comuns e formam opinião fora do controle do Estado, do mercado ou da família. Habermas critica a modernidade quando ela reduz o indivíduo à técnica, ao mercado e à burocracia e suas ideias são muito usadas para analisar a política, a mídia e os debates públicos, sobretudo nos períodos que antecedem as eleições, quando a esfera pública se torna mais intensa e disputada.

Já Morin, vem da tradição francesa, marcada pela sociologia, antropologia, filosofia, política e educação. A área central de seus estudos é o pensamento complexo, isto é, recusa de explicações simplistas ou genéricas para os problemas humanos.

Para Morin, os fenômenos humanos são densos e precisam ser compreendidos em sua complexidade e interdependência, por isso critica o que considera ser o grande problema da educação moderna; transmitir conteúdos, separando excessivamente os saberes: ciência de um lado, humanidade de outro; razão de um lado, emoção de outro; indivíduo separado da sociedade, sociedade separada da natureza.

É preciso, ensinar a pensar, a ligar conhecimentos, a compreender o ser humano em suas dimensões biológica, social, cultural, política e afetiva.

A UNESCO publicou a obra de Morin sobre os “sete saberes” necessários à educação moderna, justamente com a preocupação de formar sujeitos capazes de pensar os problemas globais. Morin critica a modernidade quando ela fragmenta o conhecimento e separa aquilo que, na vida está ligado. A educação deve preparar o cidadão para lidar com a incerteza, com a diversidade, com os erros, com os conflitos e com os grandes desafios planetários.

Eles se complementam quando Habermas vê a modernidade como uma promessa interrompida, que libertou o indivíduo da tradição, mas o submeteu à lógica e às regras frias do mercado, da técnica e da burocracia e insiste que a solução não está no abandono da razão, mas na recuperação de uma razão voltada ao diálogo, ao consenso possível.

Edgar Morin, porém, cobra consciência no diálogo sobre as complexidades dos problemas contemporâneos. No tempo marcado pela velocidade tecnológica, pela crise ambiental, pela polarização, Morin defende uma educação que forme seres humanos mais conscientes, críticos e solidários.

Em tempo de um ciclo infindável de polarização, ‘fake news’ e ideias eleitorais simplistas, ler os dois, então, é fundamental para entender que:

Não basta falar. É preciso dialogar.

Não basta opinar. É preciso compreender.

Não basta educar para repetir.

É preciso educar para pensar.